
"Esù Elegbara dos Yorubas, Legba dos fon, encerra aspectos múltiplos e contraditórios que dificultam uma apresentação e uma definição coerentes. Vamos enumerar rapidamente suas principais características:
Esù é o mensageiro dos outros Òrìsà e nada se pode fazer sem ele.
É o guardião dos templos, das casas e das cidades.
É a cólera dos Òrìsà e das pessoas.
Tem um caráter suscetivel, violento, irascível, astucioso, grosseiro, vaidoso, indecente.
Os primeiros missionários, espantados com tal conjunto, assimilaram-no ao diabo e fizeram dele o símbolo de tudo que é maldade, perversidade, abjeção e ódio, em oposição a bondade, pureza, elevação e amor a Deus. Mas Esù de provocar acidentes e calamidades públicas e privadas, desencadear brigas, dissensões e mal-entendidos, se ele é o companheiro oculto das pessoas e as leva a fazer coisas insensatas, se excita e atiça os maus instintos, tem igualmente seu lado bom e, nisso, Esù revela-se e, talvez, o mais humano dos Òrìsà, nem completamente bom, nem completamente mal. Trabalha tanto para o bem como para o mal, é o fiel mensageiro daqueles que o enviam e que lhe fazem oferendas. Esù tem as qualidades de seus defeitos, é dinâmico e jovial. Foi ele também quem revelou a arte da adivinhação aos humanos. Seu lugar de origem é impreciso.
É a Esù que devem ser feitas as primeiras louvações e oferendas. A isso se chama, no Brasil, "despachar" Esù, com um duplo objetivo, o de despacha-lo como mensageiro para chamar e convidar os Òrìsà para a cerimônia e também de despacha-lo, envia-lo para longe, afin de que ele não venha a perturbar a boa ordem da festa por meio de gracejos de mal gosto. Os fios de conta das pessoas protegidas por ele são vermelhos e pretos e a segunda-feira é o dia que lhe é consagrado. Dizem na Bahia que existem vinte e um Esù; outros falam de sete, ou de vinte vinte e uma vez vinte e um, mas ele é ao mesmo tempo múltiplo e uno. Eis os nomes de Esù, segundo um informante:
Elegbara, Alaketu, Lalu, Jelu, Run Danto."
Pierre Verger ( Notas Sobre o Culto aos Orixás e Voduns )

Exú
Elegbára = senhor do poder
Exú Yangi = pedra
vermelha de laterita, primeira protoforma existente - água + terra -
Exú Àgbá = pai-ancestre
(representação coletiva de todos os exús individuais)
Exú Obá - rei-de-todos
Exú Alakétu = título
dado a exú pelos kétu da Bahia - rei do povo Kétu -
Exú Elebo =
senhor-das-oferendas
Exú Ojìse-ebo =
encarregado-e-transportador de oferendas
Exú Elérú = senhor do
erú (carrego)
Exú Olòbe = proprietário
e senhor da faca
Exú Enú-gbárijo =
explicitador de mensagens
Exú Bara = o rei do corpo
(obá + ara) (princípio de vida individual)
Exú Odara = aquele que
guia (mostra o caminho, vai na frente)
Exú é
o 1º nascido da existência e, como tal, o símbolo do elemento procriado.
Mensageiro dos orixás , elemento de ligação entre as divindades e os homens,
a um tempo mais próximo do mundo terreno e mais perto do elevadíssimo espaço
celeste por onde transita Òrúnmìlà, é um orixá, é sempre a primeira
divindade a receber as oferendas, justamente para que atue como um aliado e não
como um rival que perturbe os procedimentos místicos desenvolvidos durante os
rituais. Coerente com seu lugar mítico privilegiado, é ele que abre esse
"corpus mitopoético" .
Princípio
dinâmico e princípio da existência individualizada, Exú não pode ser
isolado ou classificado em nenhuma das categorias. Ele é como o axé (que ele
representa e transporta), participa forçosamente de tudo.
Segundo
Ifá cada um tem seu próprio exú e seu próprio Olorún em seu corpo.
O nome
de exú é conhecido, invocado e cultuado junto ao orixá. E é Ifá quem revela
e permite-nos sabê-lo.
O Òkòtó representa o
crescimento
Agbárá
- poder que permite a cada um se mobilizar e desenvolver suas funções e seus
destinos. Por isso recebe o título de Elegbára (senhor do poder).
Quem
delegou esse poder à exú foi Olorún ao entregar-lhe o àdó-iràn , a cabaça
que contém a força que se propaga. Esta cabaça está presente em seus
"assentos", é uma cabaça de pescoço grande, e basta exú apontá-la
a algo para transmitir seu axé.
Exú
Elegbára é o companheiro de Ogun.
Exú Yangi, pedra vermelha
de laterita, pedaços de laterita cravados na terra, indicam o lugar de culto à
Exú. Yangi é a representação mais importante de Exú e, é assim invocado:
EXÚ YANGI OBÁ BABÁ EXÚ
EXÚ YANGI rei, pai de todos os Exú.
Exú Yangi é o Exú
ancestre, o Exú Agbá.
Oxé-tuwá, representante
direto de exú, simboliza um de seus aspectos mais importantes, o de ser
encarregado e transportador das oferendas, Òjise-ebo.
Exú por ser resultado da
interação de um par, é o portador mítico do sêmen e do útero ancestral e
como princípio de vida individualizada ele sintetiza os dois, É por isso que
frequentemente, e, é representado pela forma de um par, uma figura masculina e
uma feminina, unidos por fileiras de búzios.
Exú
está profundamente ligado à atividade sexual. Representados por um falo (pênis),
ou suas representações simbólicas como: os penteados de forma fálica, sua
arma, o ogó - bastão em forma de pênis -, sua lança; já as cabacinhas
representam seus testículos.
Exú
também está representado com objetos à sua boca; dedo, cachimbo e
principalmente flauta, que vem representar a atividade sexual, como absorção e
expulsão, ingestão e restituição, com a flauta Exú chama seus descendentes.
Portanto símbolo por excelência da fecundidade.
Exú
jamais toma a forma de procriador.
Exú é
cultuado tanto como lésè-égún, como lésè-orixá, e apenas por seu intermédio
é possível cultuar os orixás e as Iyá-mi (mãe ancestre).
Não é apenas Òjisé-ebo,
mas principalmente Òjisé, o mensageiro, fazendo a comunicação entre tudo que
é oposto.
Com
efeito a relação entre Exú e Ifá, é indiscutível, e Exú está
representado em um dos principais emblemas característicos do culto à Ifá , o
òpón, onde Exú tem sua representação em forma de rosto, de triângulos e
losangos.
É no seu papel de princípio
dinâmico, de princípio de vida individual e de Òjise ou elemento de comunicação,
que Exú Bará está indissoluvelmente ligado à evolução e ao destino de cada
indivíduo. Como tal ele também é senhor dos caminhos Exú Olònà, e ele pode
abri-los ou fechá-los.
Exú
fica à esquerda dos caminhos. O elemento procriado, é a prova do poder das Iyá-mi,
é o pássaro, o Elèye.
Exú
foi o primeiro a usar ekódide (pena de uma espécie de papagaio) na cabeça, e
foi isto que o tornou decano de todos os orixás. Alguém que coloca ekódide na
cabeça sem necessidade, provoca a cólera de Exú.
Enganosamente ou mal
intencionados, os primeiros missionários que chegaram à África, compararam-no
ao diabo, por algumas de suas formas, artimanhas e poderes atribuídos. Ele tem
as qualidades dos seus defeitos, pois é dinâmico e jovial, havendo mesmo
pessoas na África que usam orgulhosamente nomes como Èxúbíyìí (concebido
por exú), ou Èxùtósìn (Exú merece ser adorado).
Como
personagem histórica, Exú teria sido um dos companheiros de Odùduà, quando
da sua chegada à Ifé, e chamava-se Exú Obasin. Tornou-se mais tarde, um dos
assistentes de Orúnmilá, que preside a adivinhação pelo sistema de Ifá.
Segundo Epega, Exú, tornou-se rei de Kêto sob o nome de Exú Alákétu.
É
Exú que supervisiona as atividades do rei em cada cidade: o de Oyó é chamado
Exú Akesan.
Como orixá, diz-se que veio ao mundo com um porrete,
chamado, ogó, que teria a propriedade de transportá-lo, a centenas de quilômetros
e de atrair, por um poder magnético, objetos situados a distâncias igualmente
grandes.

Que Esù guie os caminhos de todos e que sempre, com sua velocidade estonteante, espalhe as sementes da paz pelo mundo.
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